InícioÚltimas NotíciasDaniel Santos e Zequinha Marinho: ex-funcionário fatura milhões

Daniel Santos e Zequinha Marinho: ex-funcionário fatura milhões

- Advertisement -

Há trajetórias empresariais construídas capítulo por capítulo. A de Jaison Diego Coelho de Sena parece ter dispensado algumas páginas — e saltado diretamente do modesto salário no serviço público para a casa dos milhões.

Em 2021, Jaison trabalhava como agente de portaria temporário da Secretaria Municipal de Saúde de Ananindeua, durante a gestão de Daniel Santos. O contrato publicado no Diário Oficial do Município mostra que ele foi lotado nas unidades básicas de saúde Coqueiro II e III, com vigência de março de 2021 a fevereiro de 2022.

Segundo reportagem publicada no portal  de notícias do jornalista Guilherme Amado, o cargo rendia salário na faixa de R$ 1,1 mil.

O emprego era simples, mas o futuro profissional guardava ambições bem mais encorpadas. Pouco tempo depois, Jaison deixou o trabalho na Prefeitura de Ananindeua e foi contratado com cargo comissionado no gabinete do senador Zequinha Marinho (Podemos-PA), aliado de Daniel Santos, onde passou a ocupar o cargo comissionado de ajudante parlamentar júnior, referência AP-01.

Os registros do Senado mostram uma primeira passagem entre maio e agosto de 2022. Jaison retornou em fevereiro de 2023 e permaneceu até 23 de abril de 2026. A remuneração bruta do cargo estava na faixa dos R$ 3 mil mensais — um avanço respeitável diante dos vencimentos de agente de portaria, mas ainda distante dos números que apareceriam logo adiante.

A ascensão meteórica de Jaison Sena

A grande virada começou antes mesmo de Jaison deixar o Senado. Em 19 de novembro de 2025, quando ainda integrava o gabinete de Zequinha Marinho, ele abriu, em Belém, a Editora Book Soluções em Educação.

Enquanto a maioria dos pequenos empreendedores começa com empréstimos, algum equipamento usado e muita conversa com o gerente do banco, a Book dispensou esse roteiro tradicional. Nasceu com capital social declarado de R$ 2 milhões e Jaison como único sócio-administrador. Em matéria de estreia, foi menos “primeiro passo” e mais salto com vara.

Segundo a apuração de Guilherme Amado, o balanço contábil da empresa mostra que, em pouco mais de um mês de atividade até o fim de 2025, a editora já acumulava R$ 2,45 milhões em ativos e receita bruta próxima de R$ 365 mil. O negócio nasceu com CNPJ novo, mas com fôlego de veterano.

A Editora Book, entretanto, não foi a primeira experiência formal de Jaison no mundo empresarial. Consultas cadastrais apontam que ele abriu, em junho de 2019, uma microempresa individual de representação de energia solar, com capital social de R$ 10 mil. O salto realmente extraordinário, portanto, não foi de trabalhador sem qualquer atividade empresarial para empresário, mas de um pequeno negócio de R$ 10 mil para uma editora capitalizada em R$ 2 milhões.

Outro ponto que merece esclarecimento é o fato de Jaison constar como sócio-administrador da editora enquanto ainda exercia cargo comissionado no Senado. O artigo 117 da Lei nº 8.112 proíbe, em regra, que servidor federal participe da gerência ou administração de empresa privada.

Conexões políticas e contratos milionários

Jaison foi exonerado do Senado em 23 de abril de 2026. O vínculo familiar com o gabinete, contudo, não terminou. Sua esposa, Maely Luana Amador de Lima de Sena, foi novamente nomeada para o cargo AP-01 de ajudante parlamentar júnior no escritório de apoio de Zequinha Marinho.

A palavra “novamente” é necessária: Maely já havia trabalhado no mesmo gabinete entre setembro de 2022 e fevereiro de 2023. Em 2026, retornou ao quadro após a saída do marido e aparece atualmente como servidora comissionada ativa. A cadeira não é hereditária, evidentemente; apenas demonstrou notável vocação para permanecer no círculo familiar do gabinete de Zequinha Marinho.

R$ 18 milhões em negócios públicos

Livre do cargo no Senado – passado quase que com título de hereditariedade – Jaison viu a editora avançar rapidamente sobre o mercado de compras governamentais.Em 2026, a Editora Book já tinha contratos pelo valor total de R$ 5.077.564. Foram publicados dois contratos, de R$ 2,539 milhões e R$ 2,537 milhões, destinados ao atendimento de redes municipais de educação.

O lance mais vistoso veio quatro meses depois, justamente em Ananindeua, município onde Jaison havia trabalhado como agente de portaria. Em 23 de setembro, a Secretaria Municipal de Educação homologou em favor da Editora Book o resultado de um pregão eletrônico para fornecimento de material de apoio ao ensino da língua inglesa, da educação infantil ao 9º ano.

No dia seguinte foi assinada uma ata de registro de preços no valor máximo de R$ 9.602.570,98, com validade de 12 meses. Somados os instrumentos da prefeitura de Ananindeua com outras gestões municipais, o volume potencial de negócios públicos chega a R$ 14.680.134,98.

Aqui cabe uma ressalva importante: os R$ 9,6 milhões de Ananindeua não representam necessariamente dinheiro já pago à editora. Uma ata de registro de preços permite que o município faça aquisições durante sua vigência, conforme a demanda, até o limite estabelecido. Não é um Pix de R$ 9,6 milhões — embora o número publicado no Diário Oficial seja suficientemente robusto para dispensar modéstia.

A ata de R$ 9,6 milhões foi assinada pela secretária municipal de Educação, Ana Paula Fernandes Renato, já na administração do prefeito Hugo Atayde, sucessor de Daniel Santos após deixar o cargo.

A Editora Book já acumula R$ 8,46 milhões em quatro contratos formalizados com prefeituras paraenses, e em Ananindeua, a empresa venceu uma licitação e assinou uma ata de registro de preços de até R$ 9,6 milhões, ainda sem empenhos ou pagamentos registrados, somando negócios públicos com prefeituras do Pará que alcançam potencialmente R$ 18,06 milhões.

Os registros consultados revelam uma ascensão empresarial incomum, marcada pela abertura de uma empresa milionária enquanto o proprietário ainda ocupava cargo no Senado, pela permanência da esposa no gabinete do mesmo senador e pela rápida conquista de negócios públicos de grande valor.

Ser porteiro, evidentemente, não impede ninguém de prosperar. O ponto de interesse público não é a origem profissional de Jaison, mas a velocidade da transformação, a origem dos R$ 2 milhões integrados logo na abertura da editora, a capacidade operacional da empresa recém-criada e a execução efetiva das compras municipais.

No universo dos livros, histórias surpreendentes são sempre bem-vindas. Quando R$ 18 milhões em recursos públicos participam do enredo, porém, o contribuinte tem o direito de conhecer também as notas de rodapé.

Fonte: Diário do Pará

RELATED ARTICLES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Advertisment -spot_img

Mais populares

Comentários recentes