
Pela 234ª vez, os paraenses viverão a emoção indescritível de sentir a força da fé da multidão que toma as ruas de Belém no segundo domingo de outubro, seguindo os passos da Virgem de Nazaré. A tradição de fé e devoção à Nossa Senhora se renova a cada ano, mesmo com as mudanças pelas quais a procissão passou ao longo do tempo. No primeiro Círio de Nazaré de que se tem registro em Belém, realizado em 1793, até o local de saída era outro.
A ideia de realizar o primeiro Círio em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré em Belém partiu do fidalgo português Francisco de Souza Coutinho, que havia chegado à cidade em 1790 para assumir o cargo de capitão-geral do Rio Negro e Grão-Pará.
Já naquela época, ele se deparou com o crescimento da devoção a Nossa Senhora em uma região então distante do centro de Belém. Ao visitar a feira que os devotos realizavam no largo capinado em frente a uma pequena ermida, onde se divertiam após as orações diante da imagem, prometeu ampliar o evento e marcou sua realização para 8 de setembro de 1793.
Meses antes da feira, porém, Francisco de Souza Coutinho adoeceu. Foi então que prometeu à Senhora de Nazaré, em torno de quem os devotos se reuniam, que, se recuperasse a saúde, levaria a imagem para o Palácio na véspera da festividade. No dia 8, retornaria à ermida em romaria, junto com o povo.
Segundo os relatos históricos, o fidalgo recuperou a saúde e, em 7 de setembro de 1793, foi à ermida acompanhado pelo capelão do Palácio do Governo para levar a imagem de Nossa Senhora de Nazaré à sede governamental. No dia seguinte, às 16h, suspendeu o trabalho e seguiu em romaria de volta à ermida.
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Para iluminar o percurso, Francisco de Souza Coutinho determinou que levassem archotes e lamparinas, pois a romaria seguiria por um caminho escuro e tortuoso, conhecido como Estrada para o Maranhão — a atual avenida Nossa Senhora de Nazaré.
A realização daquele que foi o primeiro Círio de Nazaré do Brasil foi possível porque, segundo os registros historiográficos, em 1790 a rainha de Portugal e o papa já haviam autorizado uma procissão em Belém em homenagem à devoção que crescia.
No carro do governador, uma sege, o capelão levou a imagem no colo, conforme o costume europeu. Ao lado dele, o governador carregou uma vela da própria altura. Esse tipo de promessa permanece até hoje: uma vela fina, feita na medida da pessoa para quem se fez a promessa e presa a uma vara para evitar que se quebre.
À época, coube ao capelão, padre José Roiz de Moura, carregar a imagem durante a procissão porque a Diocese estava vacante, ou seja, sem bispo. Assim que os devotos chegaram à ermida com a imagem de Nossa Senhora, uma missa foi celebrada. Segundo os historiadores, aproximadamente 10 mil pessoas participaram daquele primeiro Círio, número bem diferente dos mais de 2 milhões de fiéis que acompanham a procissão nos dias de hoje.
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O percurso pouco mudou desde então, mas o crescimento da devoção e a realização do Círio acompanharam a estruturação da avenida Nazaré. A cada ano, a fé renova e engrandece a tradição que nasceu de uma promessa e de um gesto de agradecimento à mãe de Jesus.
Marcos históricos da procissão
1793 — A primeira romaria
Em 8 de setembro, a imagem saiu da capela do Palácio do Governo em direção à ermida, no local onde hoje fica a Basílica Santuário de Nazaré. O antigo palácio corresponde ao atual Palácio Lauro Sodré, sede do Museu do Estado do Pará, na Praça Dom Pedro II, na Cidade Velha.
1854 — A caminhada pela manhã
As chuvas motivaram a definição do período matutino para a procissão, que antes podia ocorrer à tarde ou à noite.
1882 — A saída da Catedral
Dom Macedo Costa e o presidente da província, Justino Ferreira, decidiram transferir o ponto de partida do Palácio do Governo para a Igreja da Sé.
1901 — Uma data fixa
O bispo Dom Francisco do Rêgo Maia estabeleceu o segundo domingo de outubro para a realização do Círio. Anteriormente, a procissão podia acontecer em setembro, outubro ou novembro.
2000 — O cortejo mais demorado
Na procissão considerada a mais longa da história, a Imagem Peregrina chegou à Basílica Santuário às 15h45. A corda permaneceu atrelada à Berlinda durante todo o trajeto.
Fonte: Dossiê do Círio de Nazaré — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Fonte: Diário do Pará



