
Parar de apostar pode ser difícil para quem desenvolveu transtorno do jogo, uma condição de saúde mental marcada pela perda de controle sobre as apostas e pela prioridade crescente dada ao comportamento. Nesses casos, interromper o jogo pode provocar uma reação emocional intensa. Ansiedade, irritação, inquietação, dificuldade para dormir e forte vontade de apostar podem aparecer.
Isso, porém, não significa que a pessoa esteja passando por uma síndrome de abstinência igual à provocada pela interrupção de uma substância. O transtorno do jogo é classificado como uma dependência comportamental. A Organização Mundial da Saúde, na CID-11, considera como características centrais a dificuldade de controlar o jogo, o aumento da prioridade dada às apostas e a continuidade do comportamento mesmo diante de consequências negativas.
A diferença é importante. No caso de álcool, nicotina ou outras drogas, o organismo precisa se adaptar à ausência de uma substância que vinha sendo consumida. Nas apostas, não existe uma droga entrando no corpo. O que se interrompe é um comportamento que pode ter se tornado altamente reforçador.
Ainda assim, o cérebro participa desse processo. Estudos de neuroimagem mostram alterações na atividade de circuitos relacionados à recompensa, motivação, aprendizagem, memória e controle executivo em pessoas com transtorno do jogo. Regiões como o estriado, o núcleo accumbens, a ínsula e áreas do córtex pré-frontal aparecem envolvidas nas respostas a estímulos relacionados às apostas.
Por isso, a interrupção pode ser acompanhada por uma sensação de perda ou de falta. A pessoa não sente necessariamente uma abstinência física provocada por uma substância. Ela pode experimentar, principalmente, craving, termo usado na área da saúde para descrever uma vontade intensa de realizar determinado comportamento.
Essa vontade também pode ser ativada por situações específicas. Ver um anúncio de apostas, acompanhar uma partida esportiva, receber uma mensagem de uma plataforma ou simplesmente passar por um horário em que costumava jogar pode funcionar como um gatilho. Pesquisas mostram que pessoas com transtorno do jogo apresentam maior reatividade a estímulos associados às apostas, o que ajuda a explicar por que determinadas situações despertam uma vontade intensa de voltar ao comportamento.
Ansiedade e irritação podem aparecer?
Podem. Quando uma pessoa com dependência comportamental interrompe as apostas, ansiedade, irritabilidade, inquietação e alterações do sono podem aparecer, especialmente quando existe uma forte expectativa de voltar a jogar.
A experiência varia bastante. Algumas pessoas sentem apenas uma vontade recorrente de apostar. Outras ficam mais agitadas, têm dificuldade de concentração ou passam a pensar repetidamente em jogos e possíveis formas de conseguir dinheiro para apostar novamente.
A intensidade também pode mudar conforme o contexto. Estresse, problemas financeiros, conflitos pessoais e contato com estímulos relacionados às apostas podem aumentar a vontade de jogar.
Por isso, não é adequado tratar todo desconforto depois de parar como uma síndrome de abstinência. O mais importante é observar a intensidade da compulsão e a capacidade de manter o controle sobre o comportamento.
Por que surge a vontade de trocar uma aposta por outra?
O cérebro aprende associações. Quando determinada atividade se repete e produz expectativa de recompensa, situações relacionadas a ela podem ganhar importância. No jogo, essa aprendizagem envolve não apenas o resultado de ganhar dinheiro, mas também a expectativa, o risco, a incerteza e a possibilidade de uma recompensa.
Com o tempo, a pessoa pode começar a buscar novas oportunidades de aposta assim que interrompe uma modalidade. Quem costumava apostar em futebol, por exemplo, pode migrar para cassino on-line, jogos eletrônicos com dinheiro ou outro tipo de aposta.
Essa substituição não significa necessariamente que uma modalidade específica seja a causa do problema. Ela pode indicar que a necessidade central está ligada ao comportamento de apostar, e não apenas a determinado jogo.
A chamada fissura também pode contribuir para esse processo. Uma revisão de dezenas de estudos encontrou relação entre craving e fatores associados ao transtorno do jogo, incluindo episódios de apostas e persistência na tentativa de recuperar perdas.
O cérebro volta ao normal quando a pessoa para?
Não existe uma mudança cerebral única que permita dizer que o cérebro simplesmente “entra em abstinência” e depois retorna ao estado anterior em determinado prazo.
A pesquisa aponta para uma interação complexa entre circuitos de recompensa, aprendizagem, motivação e controle de impulsos. Além disso, os estudos ainda investigam quanto dessas alterações representa uma vulnerabilidade anterior ao transtorno e quanto resulta da experiência repetida de apostar.
Por isso, frases como “o cérebro fica sem dopamina quando a pessoa para de apostar” simplificam demais o processo. A dopamina participa da antecipação de recompensas e da aprendizagem relacionada às apostas, mas não é correto explicar a dependência apenas como uma falta de dopamina.
O que pode acontecer é a permanência, por algum tempo, de associações aprendidas entre determinados estímulos e a expectativa de apostar. É por isso que evitar gatilhos e desenvolver novas formas de lidar com emoções pode fazer parte do tratamento.
Quando procurar atendimento?
A ajuda profissional se torna especialmente importante quando a pessoa não consegue controlar as apostas, tenta parar repetidamente e não consegue, aumenta os valores apostados, esconde o comportamento de familiares ou continua jogando mesmo depois de sofrer prejuízos financeiros, profissionais ou familiares.
Também é um sinal de alerta quando a pessoa passa grande parte do dia pensando em apostas, tenta recuperar dinheiro perdido apostando novamente ou começa a comprometer despesas básicas para continuar jogando.
O tratamento pode envolver psicoterapia, avaliação psiquiátrica e estratégias para reduzir a exposição aos gatilhos. A abordagem depende de cada caso e pode incluir o tratamento de outros problemas de saúde mental que estejam presentes.
Se a pessoa apresentar sofrimento psicológico intenso, pensamentos de morte ou de suicídio, deve procurar atendimento de urgência imediatamente. Nessas situações, a prioridade é garantir segurança e acesso rápido a profissionais de saúde.
Parar de apostar, portanto, pode ser difícil para quem desenvolveu dependência. A dificuldade não precisa ser interpretada como uma abstinência igual à de uma droga. Ela pode refletir a força do hábito, das associações aprendidas, da expectativa de recompensa e do craving. Reconhecer esses sinais ajuda a identificar quando uma tentativa de parar precisa do apoio de profissionais.
Fonte: Diário do Pará



