
O sistema eleitoral dos Estados Unidos funciona de maneira bem diferente do modelo adotado no Brasil. Enquanto os brasileiros estão acostumados a registrar o voto diretamente em urnas eletrônicas, os americanos ainda utilizam majoritariamente cédulas de papel.
A diferença ganhou novo destaque depois que o presidente americano Donald Trump elogiou a velocidade da apuração brasileira e voltou a criticar o sistema eleitoral dos Estados Unidos. A comparação ocorre às vésperas das Eleições de Meio de Mandato, marcadas para 3 de novembro.
Apesar da predominância do papel, os americanos também utilizam tecnologia durante a votação. Em quase todas as jurisdições, computadores participam da contagem das cédulas. O método mais comum é o scanner óptico, que identifica as marcações feitas pelo eleitor e contabiliza os votos.
Em alguns locais, o eleitor encontra uma urna eletrônica semelhante ao conceito conhecido pelos brasileiros. Entretanto, esse equipamento costuma funcionar acompanhado de um registro físico. O sistema imprime as escolhas feitas durante a votação e mantém esse documento para eventuais auditorias ou recontagens.
Segundo a Comissão de Assistência Eleitoral dos Estados Unidos, a EAC, o registro em papel cria uma forma independente de conferir os resultados. A entidade afirma que o documento fica separado do software utilizado no processo e permite verificar a apuração posteriormente.
“Ele existe à parte do software de qualquer sistema e oferece às autoridades um meio de conferir a apuração com absoluta segurança, por meio de auditorias e recontagens após a eleição.”
A Pesquisa de Administração Eleitoral e Votação de 2024 da EAC mostra a dimensão desse modelo. Mais de 98% das jurisdições americanas utilizam cédulas de papel ou equipamentos que produzem um registro físico verificável pelo eleitor.
Essa característica também está ligada à forma como os Estados Unidos organizam suas eleições.
Como funciona o sistema eleitoral americano?
Ao contrário do Brasil, os Estados Unidos não possuem uma autoridade eleitoral nacional responsável por organizar diretamente as eleições em todo o território.
A Constituição americana estabelece que os 50 estados tenham responsabilidade sobre aspectos como horários, locais e condução das eleições. A estrutura ainda se divide em unidades menores, como condados e cidades.
Por isso, a escolha dos equipamentos de votação pode ficar sob responsabilidade das próprias jurisdições locais ou dos governos estaduais. O resultado é uma variedade de sistemas eleitorais espalhados pelo país.
A EAC, órgão ligado ao governo federal, não administra as eleições nem determina qual tecnologia deve ser utilizada. A instituição estabelece diretrizes e oferece orientações, mas a decisão final permanece descentralizada.
Essa diversidade também pode ser vista como uma estratégia de segurança. Segundo uma porta-voz da EAC, especialistas consideram que a existência de diferentes sistemas reduz o risco de um problema atingir simultaneamente todo o país.
“Muitos especialistas em segurança eleitoral também consideram essa diversidade de sistemas uma vantagem de segurança, uma vez que não existe um ponto único de falha em âmbito nacional.”
Histórico de desconfiança e modernização
A relação dos americanos com a votação eletrônica também foi afetada por episódios históricos.
Durante as décadas de 1970 e 1980, diferentes equipamentos eletrônicos começaram a ser testados nos Estados Unidos. A tecnologia, porém, passou por um momento de forte questionamento após a eleição presidencial de 2000.
Naquele ano, o republicano George W. Bush derrotou o democrata Al Gore após uma disputa extremamente apertada na Flórida. Uma recontagem de aproximadamente 600 votos em um condado revelou problemas nas antigas máquinas de cartão perfurado.
Fragmentos de papel podiam permanecer presos às cédulas. Com isso, algumas marcações não eram identificadas pelos equipamentos, fazendo com que votos válidos fossem classificados como votos em branco.
O episódio provocou uma disputa judicial e aumentou o debate sobre a segurança e a confiabilidade das tecnologias utilizadas para registrar e contabilizar votos.
Em 2002, o Congresso americano aprovou o Help America Vote Act, conhecido como HAVA, que modernizou equipamentos e estabeleceu novos padrões para os sistemas eleitorais.
A mudança contribuiu para a substituição de máquinas antigas e para a expansão das chamadas DREs, equipamentos que registravam os votos de maneira eletrônica.
Entretanto, a própria tecnologia passou a enfrentar críticas. Com o crescimento das preocupações sobre a segurança das DREs, diferentes jurisdições começaram a adotar sistemas capazes de produzir também uma comprovação física do voto.
O modelo atual, portanto, combina tecnologia e papel. O eleitor pode utilizar equipamentos eletrônicos, mas o processo mantém uma forma física de verificar o resultado.
Por que os EUA não adotam o modelo brasileiro?
A diferença entre os dois países não depende apenas da tecnologia disponível.
Especialistas apontam que uma mudança para um sistema semelhante ao brasileiro envolveria confiança do eleitorado, aceitação política e adaptação institucional. Além disso, seria necessário considerar a estrutura descentralizada das eleições americanas.
Uma pesquisa conduzida pelo Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos, o NIST, analisou em 2026 as perspectivas de especialistas sobre sistemas eletrônicos de votação com criptografia de ponta a ponta.
O levantamento indicou que a adoção em larga escala de novas tecnologias não depende exclusivamente da capacidade técnica dos equipamentos.
As respostas destacaram também fatores humanos e institucionais. Em outras palavras, mesmo que uma tecnologia seja considerada segura, sua implementação precisa levar em conta a confiança da população, a compreensão do eleitor e a aceitação dos diferentes grupos envolvidos no processo.
Assim, a diferença entre Brasil e Estados Unidos não se resume a uma escolha entre papel e computador. Os dois países construíram sistemas eleitorais a partir de estruturas políticas e administrativas distintas.
No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) concentra a organização nacional das eleições e utiliza a urna eletrônica como principal ferramenta de votação.
Nos Estados Unidos, a responsabilidade permanece distribuída entre estados, condados e cidades. Por isso, um eleitor pode encontrar uma tecnologia diferente daquela utilizada em outra região do país.
Com as Midterms de 2026 se aproximando, a discussão volta ao centro do debate americano. E, apesar do avanço tecnológico, o papel continua sendo uma peça importante do sistema eleitoral dos Estados Unidos.
Fonte: Diário do Pará



