
Quem utiliza vape ou cigarro eletrônico pode acreditar que o dispositivo oferece menos riscos à saúde bucal do que o cigarro convencional. No entanto, segundo a Dra. Cristina Miura, periodontista e implantodontista especializada em doenças da gengiva, o aerossol produzido pelo aparelho entra em contato direto com a mucosa bucal, os dentes e a gengiva, favorecendo alterações que podem desencadear processos inflamatórios.
No Brasil, a Anvisa proíbe desde 2009 a fabricação, venda, importação, divulgação e distribuição de dispositivos eletrônicos para fumar. Ainda assim, o uso desses produtos se popularizou, especialmente entre jovens e pessoas que substituíram o cigarro tradicional pelo vape.
“O cigarro eletrônico não queima tabaco, mas vaporiza substâncias que chegam diretamente à mucosa bucal. A gengiva não distingue o tipo de dispositivo. Ela responde à agressão”, afirma.
Como o vape pode afetar a gengiva
Em vez de queimar tabaco, o cigarro eletrônico aquece líquidos que podem conter nicotina, propilenoglicol, glicerina vegetal, aromatizantes e outras substâncias. A cada tragada, esse aerossol percorre toda a cavidade bucal e entra em contato com tecidos sensíveis.
De acordo com a especialista, essa exposição frequente pode alterar o equilíbrio da microbiota da boca. Quando bactérias nocivas passam a predominar sobre as protetoras, aumenta a possibilidade de inflamação gengival e cria-se um ambiente mais favorável para o avanço da periodontite.
“A nicotina é a nicotina, seja no cigarro de papel, no eletrônico ou no narguilé. Ela reduz o suprimento de oxigênio para as células de defesa da gengiva e pode abrir caminho para que bactérias associadas à doença periodontal se instalem”, explica.

Por que a ausência de sangramento pode enganar
Nem sempre a gengiva apresenta os sinais mais conhecidos de inflamação. Entre usuários de produtos com nicotina, a vasoconstrição provocada pela substância pode reduzir o sangramento gengival, um dos principais indícios de que existe um problema.
Com isso, a pessoa pode escovar os dentes sem perceber sangue ou sentir dor e concluir, de forma equivocada, que a saúde bucal está preservada. Segundo a Dra. Cristina, esse efeito pode mascarar um processo inflamatório em andamento.
“A ausência de sangramento não deve ser vista, sozinha, como garantia de saúde. Em quem usa nicotina, o sinal pode estar mascarado, enquanto o processo inflamatório segue em curso”, destaca.
Sinais na boca que merecem atenção
Os efeitos do vape vão além da gengiva. Segundo a especialista, os aromatizantes e outros compostos presentes nos líquidos vaporizados também podem modificar o ambiente bucal, favorecendo o crescimento de bactérias relacionadas ao desenvolvimento de cáries.
Outro ponto que merece atenção é a boca seca. O propilenoglicol, presente em muitos líquidos utilizados nesses dispositivos, pode provocar sensação de ressecamento. Com menos saliva, a boca perde parte de sua proteção natural contra bactérias, acidez e mau hálito.
Também é importante observar sinais como retração da gengiva, dentes que parecem mais longos, espaços escuros entre os dentes, sensibilidade, desconforto na gengiva e mau hálito persistente. Em usuários de nicotina, a ausência de sangramento, isoladamente, não indica que a gengiva esteja saudável.
Além disso, o contato frequente da mucosa bucal com calor e compostos químicos pode provocar irritações. Manchas, feridas, alterações de cor, mudanças de textura ou aumento da sensibilidade devem ser avaliados por um dentista.
Vape sem nicotina também oferece riscos?
Segundo a periodontista, retirar a nicotina reduz um fator de risco, mas não torna o dispositivo inofensivo para a saúde bucal. Produtos comercializados como vape sem nicotina ainda podem conter aromatizantes, solventes e outros compostos químicos capazes de irritar a mucosa e alterar o equilíbrio da boca.
“Não existe aerossol neutro para a gengiva. O calor, os compostos químicos e a alteração do pH já podem comprometer o ambiente bucal. A ausência de nicotina reduz um fator de risco, mas não elimina todos os outros”, observa a especialista.


Quando procurar um periodontista
A Dra. Cristina recomenda que pessoas que utilizam cigarro eletrônico, vape ou narguilé com frequência incluam a avaliação periodontal na rotina de cuidados, mesmo quando não apresentam dor ou sangramento.
O exame permite identificar inflamações, retração gengival, alterações na profundidade entre o dente e a gengiva e possíveis comprometimentos das estruturas que sustentam os dentes. Quando a doença gengival é diagnosticada em estágios leves ou moderados, tratamentos menos invasivos podem controlar a infecção, reduzir a inflamação e preservar os dentes naturais.
“O tratamento funciona melhor quando a gente também olha para os fatores que mantêm a inflamação. Reduzir ou interromper o uso, quando possível, faz parte do cuidado, mas isso precisa ser conduzido com orientação, sem julgamento”, avalia.
A orientação é procurar um periodontista ao perceber retração da gengiva, dentes aparentemente mais longos, mobilidade dentária, boca seca frequente, sensibilidade na gengiva, mau hálito persistente ou qualquer alteração na mucosa bucal.
Para quem usa vape, a ausência de dor ou de sangramento não deve ser considerada um indicativo de que a gengiva está saudável. Segundo a especialista, o diagnóstico precoce amplia as chances de controlar o problema com tratamentos menos invasivos e preservar os dentes naturais.
Fonte: Diário do Pará



