
A jornalista Clarice Azevedo, filha do cantor e compositor Geraldo Azevedo, compartilhou um relato sobre as prisões e torturas sofridas pelo pai durante a ditadura militar. Entre as memórias que ouviu ao longo da vida está a história de um violão que, segundo o relato familiar, teria feito as agressões cessarem.
Geraldo Azevedo foi preso duas vezes durante a ditadura. Em uma das prisões, passou 40 dias na Ilha das Flores, sendo 20 deles em uma solitária.
Durante as sessões de tortura, o músico tentava explicar que não tinha envolvimento com aquilo. Segundo Clarice, ele repetia que “só fazia música e desenho”. Foi nesse contexto que aconteceu um dos episódios mais marcantes do relato.
Um dia, deram um violão para Geraldo. Ele tocou. Segundo a história contada por Clarice, a música sensibilizou o homem que torturava seu pai. Depois disso, as sessões de tortura pararam. A prisão, porém, ainda não havia terminado.
Os responsáveis queriam que Geraldo tocasse na festa do comandante. O músico respondeu que só aceitaria se estivesse livre. Geraldo foi solto. Antes, contudo, ainda precisou tocar na festa dos oficiais.
A história permaneceu na memória da família e acompanhou Clarice desde a infância. Para a jornalista, o episódio não pode ser separado da própria trajetória familiar. “Essa é uma história que eu cresci ouvindo. Não é um capítulo de livro de História para mim. É a história do meu pai”, afirmou.
Memória familiar
O relato de Clarice também ajuda a entender por que a experiência do pai influencia sua relação com questões políticas. Para ela, a ditadura não aparece apenas como um período histórico estudado nos livros, mas como parte da trajetória de alguém próximo.
A jornalista questiona como poderia olhar para a experiência de Geraldo e tratá-la como uma questão abstrata.
“Como eu consigo olhar para a história do meu próprio pai, um homem preso e torturado por uma ditadura, e tratar como uma questão abstrata aquilo que, para a minha família, tem nome, memória e cicatriz?”, declarou.
Na sequência, Clarice resume a relação que mantém com essa memória: “Eu não consigo.”
O depoimento coloca a experiência familiar no centro da lembrança sobre a ditadura. A prisão de Geraldo, os dias na solitária e as sessões de tortura fazem parte das histórias que Clarice ouviu sobre o pai.
O episódio do violão
Entre essas lembranças, o episódio do violão ocupa um lugar particular. Geraldo, que durante as sessões dizia que sua atividade era fazer música e desenho, acabou usando justamente a música em uma situação de violência.
O instrumento teria provocado uma reação diferente no homem responsável pelas torturas. Segundo o relato de Clarice, depois que Geraldo tocou, as agressões foram interrompidas.
A situação ganhou ainda outro desdobramento quando pediram que o músico se apresentasse na festa do comandante. Geraldo condicionou a apresentação à sua liberdade.
Mesmo depois de ser solto, ainda teve de tocar na festa dos oficiais.
Uma história que atravessa a família
A memória contada por Clarice mostra como a experiência da ditadura pode permanecer ligada à história de uma família décadas depois dos acontecimentos.
No caso de Geraldo Azevedo, o período deixou marcas que ultrapassaram sua trajetória artística. O cantor e compositor foi preso, torturado e perseguido, enquanto sua família preservou os relatos sobre o que aconteceu.
Para Clarice, essa memória tem uma dimensão pessoal que não pode ser dissociada da forma como ela compreende o período.
Por isso, ao falar sobre suas posições políticas, a jornalista recorre à história do próprio pai. Não é apenas uma discussão sobre o passado: é uma lembrança familiar que ela cresceu ouvindo.
Fonte: Diário do Pará



