
O mosaico amazônico das 12 Cordas: Solos do nosso solo 1 e 2
Finalmente mais dois clássicos da música instrumental do Pará aportam nas plataformas digitais para serem ouvidos aos borbotões: Solos do nosso solo 1 e 2, assinados pelos mestres Bob Freitas e Nego Nelson. Trata-se de uma verdadeira celebração nascida do diálogo refinado entre as “12 cordas” — a guitarra elétrica de timbre limpo e tom jazzístico de Bob e o violão de nylon acústico de Nego. Uma cumplicidade maturada ao longo de quase meio século de estrada: cada nota que um ergue ou sustenta serve de cama perfeita para o outro molejar temas antológicos do cancioneiro popular paraense e composições autorais inesquecíveis.
Vol. 1: clássicos e cumplicidade autoral
O primeiro volume destaca a força autoral da dupla. De Nego Nelson, brilham Mimo, Barcarena e Pouso do pombo — as duas últimas, verdadeiros monumentos instrumentais: Barcarena marcou época como prefixo e sufixo da Rádio Cultura FM, enquanto Pouso do pombo ecoava no mítico Bar-teatro Maracaibo nos anos 1980, inspirando o violonista Salomão Habib a compor a célebre Nelsolando. Na parceria direta da dupla surge Coçando…, um casório impecável onde cada fraseado parece “coçar” a nota exata para o improviso do parceiro.
Bob Freitas contribui com a emblemática Fusão — faixa-título do primeiro show de música instrumental pago em teatro de Belém (em 1988, com o Grupo Gema) —, além de Míme e Sassá e Babaçu. O repertório do Vol. 1 completa-se com pérolas do cancioneiro paraense: Atalaia e Cobrindo o sol (Guilherme Coutinho), Mesa de bar (Paulo André Barata), Pecados de Adão (Eloy Iglésias), Pássaro cantador (Pedrinho Cavaléro e Jorge Andrade), Tempo de amar (De Campos Ribeiro), Clarão de lua (Almirzinho Gabriel) e Violão quebrado (Carlos Henry e Icaraí Dantas).
Vol. 2: devoção à paisagem sonora paraense
O volume 2 abre em tom de exaltação com a consagrada Bom dia Belém (Edyr Proença e Adalcinda Camarão), enfileirando hinos como Poema de amor (Wilson Fonseca), Flor do Grão Pará (Chico Sena), Sabor açaí (Nilson Chaves), Mãe Maria (Maria Lídia), Janelas de Belém (Alcyr Guimarães) e Teatro da Paz (David Miguel). Nego marca presença com as autorais Depois eu digo, Chorando em valsa e Waldemando do verbo Waldemar (outro clássico da música instrumental paraense), enquanto Bob presenteia o disco com Bragantina e Sobrevoo, além de temas de Galdino Pena, Adilson Alcântara e Ronaldo Silva.
A alquimia tímbrica: do smooth jazz americano à nudez da Amazônia
Em Solos do nosso solo, a graça do projeto está justamente nessa sobreposição de timbres e timbragens de cordas: o fraseado elétrico, limpo e jazzístico da guitarra de Bob entrelaçado ao balanço acústico e às baixarias do violão de nylon da musicalidade de imoral idade de Nego Nelson.
Guardadas as devidas proporções, para mim, a dinâmica de Solos do Nosso Solo evoca a célebre parceria norte-americana entre Earl Klugh e George Benson em Collaboration (1987). A convergência tímbrica é indiscutível: o violão de nylon aveludado e ritmado conversando em contraponto direto com os fraseados fluidos e luminosos da guitarra elétrica.
Contudo, enquanto Klugh e Benson contavam com o suporte luxuoso de uma superbanda (bateria, baixo elétrico, percussão e teclados), Bob Freitas e Nego Nelson apostam no despojamento absoluto do duo “puro sangue”.
Sem cama rítmica de fundo, o violão de Nego Nelson precisa ser a própria seção rítmica e harmônica ao mesmo tempo, enquanto a guitarra de Bob Freitas precisa voar sem perder a referência espacial. Essa “nudez instrumental” de Solos do nosso solo reinterpretam essa arquitetura com o sotaque inconfundível da Amazônia — entrelaçando o choro, a síncopa paraense e a sofisticação da MPB em um registro antológico e indispensável.
GIRO CULTURAL
Circulando
A cidade já respira o ar de maniçoba e tucupi além d’outros cheiros próprios do Círio de Nazaré! Portanto, atrações culturais é o que não falta neste período. Basta pesquisar e escolher de acordo com a preferência, pois do brega ao rock, da música instrumental ao pagode e muito mais têm pela cidade.
Desde segunda, 05, até domingo, 11, está acontecendo Vila Círio Iluminado, ocupando a praça Waldemar Henrique com shows, espaços com arena gamer, gastronomia, artesanato e uma roda gigante de 37 metros. No sábado o show principal é do roqueiro do Barão Vermelho, Frejat.
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Paulo André Barata, 80 anos por Arthur Nogueira com Gileno Foinquinos e William Jardim será apresentado no teatro do Sesc Ver-o-peso, nesta quarta-feira, 07, às 19h. O cantor e compositor promete canções de Paulo e poemas de Ruy Barata, o resto só indo para conferir. Imperdível! Ingressos apenas R$ 8,00 na bilheteria a partir das 18h.
No fone
Vale muito ouvir o single dos Rolling Stones Mr Charm, além dela a inédita Bad Luck Hideaway, dueto de Mick com Keith Richards e a bateria de Charlie Watts. Na tela, rola também o clipe de Mr Charm com o ator Alexander Skarsgard.
Fonte: Diário do Pará



