
A dois dias do primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a abrir vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL) em Minas Gerais, estado considerado decisivo em qualquer disputa pelo Palácio do Planalto. Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta, 2, mostra Lula com 42% das intenções de voto, contra 36% do senador.Na rodada anterior, realizada entre 22 e 24 de setembro, Lula tinha 39% e Flávio, 37%. Os dois estavam tecnicamente empatados. Agora, enquanto o presidente avançou três pontos, o candidato do PL recuou um ponto para baixo, fazendo a distância passar de dois para seis pontos.
Quando são considerados somente os votos válidos — excluídos brancos, nulos e indecisos, como ocorre na apuração oficial —, Lula aparece com 45% em Minas, ante 38% de Flávio Bolsonaro.
A mudança mais acentuada, porém, aparece na simulação de segundo turno. Há uma semana, Flávio estava numericamente à frente, com 46%, contra 44% de Lula. Agora, o petista assumiu a dianteira, com 48%, enquanto o senador recuou para 44%. Em poucos dias, portanto, o saldo entre os dois sofreu uma inversão de seis pontos: saiu de dois pontos favoráveis a Flávio para quatro pontos de vantagem para Lula.
A série do Datafolha mostra como a disputa mineira se apertou e voltou a se afastar. Em agosto, Lula tinha 37% e Flávio, 31%. Na primeira quinzena de setembro, o placar passou para 37% a 35%. Na rodada seguinte, chegou a 39% a 37%. Agora, retornou a uma diferença de seis pontos, com 42% a 36%.
Peso do voto católico
A movimentação ocorre em um dos estados de tradição católica mais forte do país. De acordo com o Censo Demográfico de 2022, do IBGE, Minas Gerais possui aproximadamente 11,5 milhões de católicos entre os moradores de 10 anos ou mais, equivalentes a 63,5% dessa população. O percentual está quase sete pontos acima da média brasileira, de 56,7%, e coloca Minas entre os dez estados mais católicos do Brasil — com a maior proporção fora do Nordeste. O Datafolha não coletou intenções de votos em outros estados, como o Pará, por exemplo, onde há uma enorme proporção de católicos em razão de uma das datas mais importantes no calendário, que é o Dia de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira que arrasta multidões às ruas. O Instituto focou nos maiores colégios eleitorais.
A mudança nas intenções de voto dos mineiros coincide com a polêmica nacional envolvendo Nossa Senhora Aparecida e os atritos de Flávio Bolsonaro com a Igreja Católica. Não é possível afirmar, apenas com a pesquisa realizada em Minas, que o episódio provocou diretamente a alteração do placar. Mas os recortes nacionais do próprio Datafolha dão consistência à hipótese de uma reação entre católicos.
No levantamento nacional, Lula, que já liderava nesse segmento, oscilou de 45% para 50% entre os eleitores católicos. Flávio caiu de 33% para 32%. O movimento ocorreu justamente na semana em que Nossa Senhora Aparecida ocupou o centro da campanha. A margem de erro nesse grupo é de três pontos percentuais, o que recomenda cautela, mas a variação de cinco pontos do petista chama a atenção.
O episódio começou com a circulação da informação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A narrativa tomou como referência um projeto apresentado em 2007, que foi arquivado. O senador negou que tivesse qualquer intenção de atingir o título da santa. A crise, porém, ganhou outra dimensão quando ele acusou, sem apresentar provas, integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de colaborarem com o PT na disseminação da notícia falsa.
Quem são os 12 candidatos à presidência!
A CNBB reagiu afirmando que não produziu, autorizou ou participou da divulgação de desinformação eleitoral. Em nota, a entidade declarou que atribuir-lhe participação em uma articulação partidária sem provas a atingia a entidade injustamente. A CNBB fez uma advertência: “A mentira não se combate com outra mentira”.
Além dos ataques à Nossa Senhora Aparecida e aos bispos brasileiros, outro fato grave divulgado nas redes sociais na última semana, que também provocou desconforto entre setores católicos, foi um vídeo publicado por Flávio em agosto, no qual o candidato afirmou que decretaria “Jesus Cristo o Senhor do Brasil”. Para integrantes e estudiosos da Igreja ouvidos pela imprensa, a declaração reavivou preocupações com grupos religiosos que defendem a ocupação do Estado por uma visão específica da fé e tratam a devoção católica às imagens como idolatria.
Ataques sob investigação
A tensão religiosa aumentou depois que o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República a investigação de 11 episódios de ataques contra imagens religiosas ocorridos entre março e setembro.
Os casos foram registrados em diferentes estados,incluindo o Pará e no município mineiro de Esmeraldas, e envolvem suspeitas de dano, incêndio, ameaça, furto, preconceito religioso e ultraje a culto. A investigação ainda precisa esclarecer a autoria, as motivações e a eventual conexão entre os episódios. Portanto, não há base factual, neste momento, para atribuir esses atos de vandalismo aos apoiadores de Flávio Bolsonaro.
Também é falsa a versão divulgada nas redes sociais de que bolsonaristas teriam incendiado uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em Goiás. A Polícia Civil concluiu que o fogo foi provocado acidentalmente por velas deixadas aos pés da imagem, sem relação comprovada com intolerância religiosa ou com a campanha eleitoral.
O que está documentado é o confronto político de Flávio com a CNBB e o incômodo provocado por discursos de setores religiosos próximos ao bolsonarismo que questionam a veneração católica de santos e imagens. Em Minas, onde quase dois em cada três moradores se declaram católicos, essa tensão pode ter um custo eleitoral maior.
Nossa Senhora Aparecida não representa uma “outra Maria”, mas uma invocação da própria Virgem Maria, venerada pelos católicos como Mãe de Deus. No imaginário de um país formado por tantas Marias, a Padroeira reúne a fé, a figura materna, a identidade da mulher negra e uma devoção transmitida entre gerações. Mexer nesse símbolo — ainda que por insinuações, acusações ou disputas políticas — significa tocar numa parte profunda da tradição popular brasileira.
A pesquisa do Datafolha foi realizada presencialmente entre 28 de setembro e 1º de outubro, com 1.204 eleitores de 55 municípios mineiros. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos. O levantamento foi registrado na Justiça Eleitoral sob os números MG-09729/2026 e BR-03604/2026.
Fonte: Diário do Pará



