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A soberba, a aposta bolsonarista e a virada de Chicão

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A apuração das eleições para o Senado no Pará reservou para os últimos votos uma das viradas mais dramáticas deste domingo, 4. Depois de permanecer durante praticamente toda a contagem na segunda colocação, o deputado federal Delegado Éder Mauro (PL) foi ultrapassado por Chicão (União Brasil) e terminou em terceiro lugar, fora das duas vagas em disputa.

Quando 97,7% das seções eleitorais já haviam sido totalizadas, Éder Mauro ainda aparecia na segunda posição, com 1.969.637 votos, contra 1.948.499 de Chicão. A vantagem era superior a 21 mil votos. Os últimos boletins, no entanto, mudaram o desfecho da eleição e colocaram Chicão na vaga.

Com a derrota, Éder Mauro concluirá, em 31 de janeiro de 2027, seu terceiro mandato consecutivo como deputado federal e, pela primeira vez desde 2015, ficará sem cargo eletivo. Eleito para a Câmara pela primeira vez em 2014, foi reeleito em 2018 e 2022.

O resultado representa uma das maiores derrotas políticas destas eleições no Pará. Éder Mauro deixou uma posição relativamente segura na disputa pela reeleição à Câmara para tentar chegar ao Senado e abriu espaço para a candidatura do filho, Rogério Barra (PL), a deputado federal. Também trabalhou pela eleição da nora, Tati Barra (PL), candidata à Assembleia Legislativa.

Rogério conseguiu ser eleito deputado federal, preservando a presença da família na política, enquanto Tati não conquistou vaga na Alepa. Para Éder Mauro, porém, a aposta pessoal terminou mal: perdeu a eleição majoritária e não terá mandato a partir de fevereiro.

A vitória de Chicão também revela a força eleitoral do ex-governador Helder Barbalho, eleito senador na primeira colocação. Helder, do MDB, e Chicão, do União Brasil, pertencem a partidos diferentes, mas integraram a mesma coligação e fizeram campanha em dobradinha por todo o Pará.

Nos programas eleitorais, atos públicos, viagens ao interior e peças divulgadas nas redes sociais, o voto em Helder era apresentado ao lado do voto em Chicão. O ex-governador usou seu capital político e a estrutura construída durante os dois mandatos no Executivo estadual para impulsionar o aliado.

A estratégia funcionou especialmente na reta final. Enquanto Éder Mauro confiava na força do eleitorado bolsonarista e aparecia como favorito para conquistar a segunda cadeira, Chicão cresceu com os votos da chapa liderada por Helder e conseguiu a virada quando restavam poucas urnas.

Mesmo com a derrota de Hana Ghassan (MDB) para o Governo do Estado, o resultado do Senado mostra que Helder preservou uma força eleitoral própria. Além de conquistar sua vaga, ajudou a eleger seu companheiro de chapa e impôs uma derrota ao principal representante do bolsonarismo paraense.

A trajetória de Éder Mauro foi acompanhada por denúncias de truculência. Na política, transformou a imagem de delegado linha-dura em plataforma eleitoral. Tornou-se integrante da chamada bancada da bala e defensor da ampliação do acesso às armas, da redução da maioridade penal e do endurecimento das penas. Éder Mauro também defendeu publicamente a pena de morte.

Durante os três mandatos na Câmara, Éder Mauro também ficou conhecido pelos bate-bocas, provocações e xingamentos em comissões e no Plenário. Em 2021, chamou a deputada Maria do Rosário (PT-RS) de “Maria do Barraco” e afirmou que ela precisava de médico e de remédio. Deputadas acusaram o paraense de machismo. Ele negou que sua manifestação tivesse relação com o gênero da parlamentar. No mesmo episódio, depois de ser questionado por Maria do Rosário sobre sua atuação como policial, Éder Mauro declarou: “Já matei, sim, e não foram poucos”, acrescentando que as vítimas seriam criminosos.

Ao longo da trajetória parlamentar, também foi alvo de denúncias e críticas por manifestações consideradas homofóbicas e transfóbicas. Em vários desses episódios, o parlamentar negou preconceito ou alegou estar exercendo sua liberdade de expressão.  Éder Mauro chegou à noite eleitoral acreditando que ocuparia uma das duas cadeiras do Pará. Saiu dela em terceiro lugar — ultrapassado justamente pela força da dobradinha que Helder e Chicão construíram município por município.

Fonte: Diário do Pará

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