
A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou nesta quarta-feira (7) suas primeiras diretrizes globais para o tratamento integrado da obesidade em crianças e adolescentes e passou a admitir medicamentos para pacientes de 10 a 19 anos em situações específicas. A recomendação não significa liberação indiscriminada das chamadas canetas emagrecedoras: os remédios somente devem ser considerados quando um programa supervisionado envolvendo alimentação, atividade física e mudança de comportamento não alcançar os resultados esperados.
A orientação estabelece uma diferença importante conforme a idade. Para crianças de até nove anos, a OMS não recomenda medicamentos contra obesidade, cirurgia bariátrica nem dispositivos destinados à perda de peso. Nessa faixa etária, a prioridade é o acompanhamento estruturado com mudanças alimentares, prática de atividade física, redução do sedentarismo, sono adequado e intervenções comportamentais.
No grupo entre 10 e 19 anos, medicamentos aprovados para o tratamento da obesidade podem ser considerados após avaliação clínica. A diretriz também admite cirurgia bariátrica, sob condições rigorosas, para adolescentes com obesidade grave.
Tratamento da obesidade começa sem remédios
A OMS enfatiza que medicamentos e cirurgia não constituem a base inicial do tratamento. A recomendação considerada central é oferecer intervenções estruturadas envolvendo alimentação, atividade física e mudança de comportamento, isoladamente ou dentro de um programa integrado.
“A base do cuidado da obesidade para crianças e adolescentes não é medicamento ou cirurgia, mas o acesso a apoio abrangente que permita alimentação saudável, atividade física e mudança sustentável de comportamento”, afirmou Luz María De Regil, diretora do Departamento de Nutrição e Segurança Alimentar da OMS. Organização Mundial da Saúde
Intervenções digitais também podem ser utilizadas, mas a recomendação é condicional e prevê supervisão dos pais ou responsáveis. O acompanhamento deve ser individualizado e levar em consideração as necessidades do paciente e da família.
Canetas emagrecedoras entram como alternativa
As chamadas canetas emagrecedoras incluem medicamentos injetáveis utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Entre os mais conhecidos estão fármacos que atuam sobre mecanismos hormonais relacionados ao controle da glicose, à fome e à saciedade.
A nova orientação, entretanto, não estabelece que qualquer criança acima dos 10 anos deva receber esses medicamentos. A OMS trata a farmacoterapia como uma possibilidade para adolescentes com obesidade quando intervenções supervisionadas de estilo de vida não forem suficientes.
A indicação deve considerar o medicamento aprovado para aquela faixa etária e ocorrer com acompanhamento profissional. A própria OMS destaca que as evidências sobre intervenções farmacológicas na população pediátrica ainda estão evoluindo.
Obesidade em crianças e adolescentes quadruplicou
A mudança ocorre diante do avanço da obesidade em crianças e adolescentes. Em 2024, aproximadamente 170 milhões de pessoas entre 5 e 19 anos viviam com obesidade no mundo, sendo cerca de 70 milhões de crianças de 5 a 9 anos e 100 milhões de adolescentes entre 10 e 19 anos.
A prevalência global nessa faixa etária quadruplicou desde 1990, passando de 2% para 8%. A OMS classifica a obesidade como uma doença crônica e recidivante, associada ao aumento do risco de problemas como diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.
Além das consequências físicas, crianças e adolescentes com obesidade podem enfrentar estigma, discriminação e bullying, com reflexos na saúde mental, no desenvolvimento e na qualidade de vida.
Saúde mental também entra no cuidado
A nova abordagem recomenda que profissionais observem simultaneamente a obesidade e eventuais problemas relacionados à saúde mental. Questões como ansiedade, depressão, baixa autoestima e dificuldades emocionais podem estar relacionadas a comportamentos alimentares inadequados, sedentarismo e isolamento social.
O tratamento deve envolver a família e utilizar estratégias adequadas ao desenvolvimento de cada paciente, evitando abordagens que aumentem o estigma relacionado ao peso.
Cuidados no Brasil
No Brasil, as canetas para obesidade exigem prescrição médica e, desde junho de 2025, a venda ocorre com retenção da receita pela farmácia. A medida busca reduzir a automedicação e aumentar o controle sobre medicamentos que ganharam popularidade nos últimos anos.
Entre os efeitos adversos possíveis estão náuseas, vômitos, diarreia, constipação e perda de massa muscular. Também existem riscos de problemas na vesícula e, mais raramente, pancreatite. Em crianças e adolescentes, o Ministério da Saúde reforça a necessidade de acompanhamento rigoroso por causa dos possíveis impactos sobre crescimento, desenvolvimento, hidratação e massa muscular.
A orientação da OMS, portanto, amplia as possibilidades terapêuticas, mas mantém alimentação saudável, atividade física, mudanças comportamentais e acompanhamento profissional como pilares do enfrentamento à obesidade na infância e adolescência. Medicamentos passam a integrar esse conjunto a partir dos 10 anos apenas quando houver indicação clínica e as medidas anteriores não produzirem os resultados esperados.
Fonte: Diário do Pará



