
A Fundação Santa Casa do Pará alcançou um marco importante no atendimento a pacientes que aguardam por um transplante. A instituição realizou a 50ª cirurgia de transplante de fígado em adultos, consolidando o serviço de transplante hepático no estado.
A marca foi alcançada na última semana, quando a recepcionista Cristiane Reni dos Santos, de 43 anos, moradora de Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém, recebeu um novo fígado. Ela se recupera bem do procedimento e é acompanhada diariamente pela equipe médica na enfermaria.
Para Cristiane, o transplante representa uma nova oportunidade. Antes da cirurgia, ela enfrentava uma condição grave de saúde e chegou a temer que não conseguisse um órgão compatível.
“Essa cirurgia me trouxe à vida, porque eu só estava sobrevivendo. Eu estava numa situação bem triste mesmo. Às vezes pensava que não ia conseguir um doador. Mas Deus deu essa oportunidade”, contou, emocionada.
A paciente também falou sobre o sentimento de gratidão e, ao mesmo tempo, de tristeza pela família que perdeu um ente querido e possibilitou a doação.
“A gente fica alegre e fica triste também, porque sabe que uma pessoa teve que perder sua vida para dar a sua para mim. Mas a vida é um encontro de oportunidades e renascimentos, e agora vamos em frente”, disse.
“Hoje ela é uma nova vida”, diz pai de paciente
O aposentado Carlos Vidal, pai de Cristiane, descreveu o transplante da filha como algo extraordinário. Segundo ele, a família acompanhava de perto o sofrimento da paciente e chegou a temer que ela não resistisse.
“Há dois anos eu perdi minha esposa e até cheguei a pensar que não estava preparado para perder minha filha. Mas Deus agiu e a coisa aconteceu. Hoje ela é uma nova vida, graças a Deus e à família da pessoa que teve o bom senso de doar esse fígado para minha filha”, afirmou.
Na mesma semana, um dia antes do transplante de Cristiane, outra paciente também recebeu um novo fígado na Santa Casa. A aposentada Verônica da Silva Pereira, moradora de Belém, enfrentava uma cirrose grave e também se recupera bem após a cirurgia.

“Até agora não tenho nenhum problema. Estou me sentindo bem. Pensei que eu nem ia sobreviver. Eu estava com o fígado completamente comprometido por cirrose. Mas, graças a Deus, eu ganhei mais uma chance”, relatou.
Verônica também agradeceu à família responsável pela doação.
“Estou muito alegre, agradeço à família que fez essa doação. Que ela seja abençoada. Fiquem certos de que uma parte dessa pessoa ainda está na Terra”, declarou.
Para a filha dela, a dona de casa Dejanis Pereira de Lima, a recuperação da mãe representa a realização de uma espera que durou anos.
“A gente vem há quatro anos lutando e há dois esperando pelo grande dia para ela ser transplantada. E hoje vejo minha mãe viva e com a gana de viver. Eu só tenho a agradecer a Deus, ao doador e à equipe médica da Santa Casa”, disse.
Segundo Dejanis, a experiência também reforçou a importância da doação de órgãos.
“Eu acredito que a importância de ser um doador é salvar vidas. Isso é muito importante para a gente e é uma prova de amor ao próximo”, afirmou.
Marca de 50 transplantes representa avanço do serviço
Para o médico cirurgião Rafael Garcia, responsável técnico pelo Transplante Hepático da Santa Casa, a realização dos dois procedimentos na mesma semana representa a evolução do serviço e da equipe responsável pelos transplantes.


Segundo o especialista, os dois casos eram considerados graves e apresentavam alto risco de morte em um curto período.
“São dois casos muito graves. Uma tinha uma situação especial, quando ganha pontos a mais por conta da gravidade. Tem uma taxa de mortalidade muito alta em um tempo curto. Em até seis meses, o Ministério da Saúde dá esses pontos para ter uma chance maior de conseguir um transplante”, explicou.
O médico destacou ainda que os dois procedimentos só foram possíveis graças à doação de órgãos.
“Para a nossa sorte e a sorte delas, duas famílias fizeram essa doação e a gente conseguiu fazer os dois casos”, afirmou.
Com os dois novos procedimentos, a Santa Casa chegou aos 50 transplantes hepáticos, número considerado um marco para o programa.
“A literatura mostra que, a partir de 50 cirurgias, um centro de transplante já está apto a fazer os casos mais graves e complexos, que é a nossa situação agora. Isso mostra uma maturidade e a evolução da equipe toda e do hospital para a gente conseguir ter esse resultado bom”, explicou Rafael Garcia.
Outro indicador comemorado pela equipe é o tempo de recuperação das pacientes. A expectativa é que as duas tenham alta em menos de dez dias.
“Isso também mostra uma maturidade do hospital na assistência do pós-operatório, para a gente conseguir esse desfecho”, destacou o cirurgião.
Doação de órgãos ainda enfrenta resistência no Pará
Apesar do avanço da estrutura de transplantes no estado, a recusa familiar à doação de órgãos continua sendo um dos principais obstáculos para ampliar o número de procedimentos.
De acordo com informações da Central Estadual de Transplantes, o Pará apresenta um índice de recusa familiar superior à média nacional. A conscientização da população e a preparação dos profissionais de saúde estão entre as estratégias utilizadas para tentar mudar esse cenário.
O tema também ganha destaque durante campanhas como o Setembro Verde, que busca conscientizar a população sobre a importância da doação de órgãos.
Segundo Rafael Garcia, cerca de 65% das famílias no Pará recusam a doação, enquanto a média nacional é de aproximadamente 45%.
“Quem quer ser um doador tem que avisar sua família, porque só a família que libera a doação”, ressaltou.
O médico explica que, no Brasil, a decisão da família é fundamental para que a doação seja autorizada em casos de morte encefálica.
“A lei aqui no Brasil é assim: não adianta fazer algum papel ou documento. Na eventualidade de uma morte encefálica, quem dá essa liberação é a família. Geralmente, as famílias acatam o que a pessoa disse em vida”, explicou.
Por isso, segundo o especialista, conversar sobre o assunto com familiares é uma atitude decisiva.
“É essencial que se discuta isso em família, para poder aumentar essa doação e ajudar muito mais gente que está muito grave e que, de outro modo, vai ter um risco de morrer muito rápido”, orientou.
O marco dos 50 transplantes representa, assim, não apenas o avanço da estrutura hospitalar, mas também a importância da decisão de famílias que, mesmo diante da perda de um ente querido, optam pela doação e possibilitam que outras pessoas tenham uma nova chance de viver.
Fonte: Diário do Pará



