
A pesquisa Quaest, da TV Liberal, sobre a disputa pelo Governo do Pará divulgada neste sábado (3), a poucas horas da abertura das urnas, traz um número que chama atenção e coloca em discussão o próprio critério utilizado pelo instituto para classificar os eleitores: 18% dos entrevistados aparecem como indecisos no cenário estimulado.
É um percentual extraordinariamente alto para uma pesquisa realizada na reta final de uma eleição.
Quando os nomes dos candidatos são apresentados ao eleitor, a tendência natural é que o contingente de indecisos seja menor do que em perguntas espontâneas. E os levantamentos divulgados neste sábado por outros institutos ajudam a dimensionar o tamanho da diferença.
No Datafolha para presidente, são 3% de indecisos no cenário estimulado. No Rio de Janeiro, o mesmo instituto registra 5%.
Na AtlasIntel, os números são ainda menores: 0,7% em São Paulo, 0,7% na Bahia, 0,5% no Ceará e 1,7% no Rio de Janeiro.
No próprio Pará, a diferença é especialmente incômoda. A AtlasIntel encontrou 2,7% de indecisos, enquanto a Quaest chega a 18%.
São 15,3 pontos percentuais de diferença entre duas pesquisas realizadas na mesma reta final e sobre a mesma eleição.
O tamanho da diferença
A questão não é simplesmente qual instituto está certo ou errado. Pesquisas podem apresentar diferenças por causa de metodologia, questionário, amostra, abordagem dos entrevistados e momento da coleta.
O problema é a dimensão dessa diferença.
Um instituto trabalha com menos de 3% de indecisos no Pará. Outro, praticamente no mesmo momento, deixa quase um em cada cinco eleitores sem decisão.
Isso não é uma diferença marginal. Muda completamente a leitura da eleição.
Com 2,7% de indecisos, como aponta a AtlasIntel, o cenário está praticamente consolidado entre os candidatos. Com 18%, como mostra a Quaest, existe uma parcela gigantesca do eleitorado ainda capaz de alterar a fotografia apresentada pela pesquisa.
E é justamente aí que o critério da Quaest merece ser questionado.
Uma margem confortável demais?
Não se trata de afirmar que o instituto esteja manipulando números. Não há, a partir desse dado isolado, elementos para fazer uma acusação desse tipo.
Mas é legítimo questionar por que a metodologia da Quaest produz um contingente de indecisos tão superior ao encontrado por praticamente todos os demais levantamentos de última hora.
Há uma consequência prática importante: uma pesquisa que aponta uma quantidade excepcionalmente grande de eleitores indecisos acaba produzindo uma espécie de colchão de incerteza para o resultado.
Se o resultado das urnas vier muito diferente daquele apresentado pela pesquisa, será possível atribuir parte relevante da discrepância à decisão de voto dos 18% classificados como indecisos.
Isso não significa que esse seja o objetivo do instituto — e não há base para afirmar isso. Mas o efeito estatístico existe: quanto maior o contingente deixado fora da distribuição dos candidatos, maior é a distância potencial entre a fotografia da pesquisa e o resultado das urnas.
Na véspera da eleição, portanto, esse número precisa ser olhado com lupa.
Quaest apresenta um Pará muito diferente
A diferença fica ainda mais evidente quando se observa o resultado entre os candidatos.
Enquanto a AtlasIntel aponta Hana Ghassan com 52,5% dos votos válidos contra 46,3% de Daniel Santos, a Quaest apresenta um cenário bastante diferente, com Daniel à frente nos votos válidos.
Parte dessa divergência pode, evidentemente, ser explicada por diferenças metodológicas e pela própria margem de erro.
Mas os 18% de indecisos acrescentam uma variável que não aparece com a mesma intensidade em praticamente nenhum dos outros levantamentos divulgados neste sábado.
É por isso que o dado não deveria passar despercebido.
Mais do que perguntar apenas “quem está na frente?”, a pergunta que a pesquisa Quaest provoca é outra: por que, a poucas horas da eleição, um instituto encontra 18% de eleitores indecisos enquanto outros encontram menos de 3%?
Essa diferença metodológica precisa ser explicada com clareza ao eleitor.
Porque, dependendo de como esses 18% se comportarem diante da urna, o resultado poderá ser muito diferente da fotografia apresentada pela Quaest — e o próprio percentual de indecisos já oferece a explicação para uma eventual mudança de cenário.
Fonte: Diário do Pará



