
Muitas ruas do centro que concentram linhas de ônibus já integravam o percurso dos bondes de Belém no início do século XX. A relação entre os dois sistemas de transporte passa pela organização dos trajetos: os veículos elétricos tinham suas linhas voltadas para a área central, uma configuração que ajuda a compreender a circulação na capital paraense.
Essa continuidade é um dos aspectos destacados pela historiadora Siméia de Nazaré Lopes, professora doutora do Curso de Licenciatura em História do Campus de Ananindeua da Universidade Federal do Pará (UFPA). Ela orientou a pesquisa de Rafael Baía sobre a implantação dos bondes elétricos e seus efeitos na dinâmica da cidade, no comércio e no deslocamento das pessoas.
O trabalho, apresentado ao curso como parte do projeto de conclusão da graduação, tem o título “A implementação dos bondes elétricos na cidade de Belém durante a Belle Époque do ano 1900 a 1909 pela perspectiva liberal higienista da elite belenense”. Segundo Siméia, a investigação abordou os transportes e a economia mobilizada por eles, considerando também as dimensões cultural e social.
O comércio no caminho dos bondes
A leitura dos jornais reunidos por Rafael permitiu observar como a concentração das linhas no centro modificava tanto a atividade das lojas quanto a circulação de pessoas, explica a orientadora. Estar no percurso dos bondes era uma condição que os estabelecimentos podiam destacar para atrair o público.
Um dos exemplos encontrados pelo pesquisador foi o anúncio de um estabelecimento que ele descreve como uma loja e hotel. A propaganda ressaltava a passagem do transporte diante do endereço.
“No meu trabalho eu falo sobre uma loja, que é um hotel, e que fazia propaganda dizendo ‘olha, o bonde passa aqui na frente’, então, isso dava um certo prestígio para aquelas lojas, movimentava o comércio, principalmente no centro da cidade”, aponta Rafael Baía.
Além das mudanças percebidas naquele período, Siméia chama a atenção para a permanência dessa organização dos deslocamentos.
“Um ponto inicial, que a gente consegue perceber também, é a questão da continuidade. As linhas de bonde atendendo, em sua excelência, o centro da cidade”.

Diferenças de classe nos vagões
Embora tenham assumido um papel central na locomoção em Belém, os bondes elétricos atendiam principalmente quem tinha mais recursos financeiros e acesso ao transporte. As diferenças sociais apareciam também no conforto oferecido aos passageiros, conforme identificou a pesquisa.
“Os vagões mais sofisticados, mais confortáveis, eram os de primeira classe e os mais simples eram destinados ao uso das classes mais populares. Havia um vagão, inclusive, que era de uso exclusivo do Governador e do Prefeito da época”, relata Siméia.
O acesso restrito também era acompanhado por disputas, segundo Rafael. O pesquisador descreve pessoas que subiam nos veículos e brigavam para se apropriar daquele meio de transporte. Por isso, ressalta que o convívio nos bondes não constituía necessariamente um ambiente harmonioso.


Da tração animal à eletricidade
Antes da rede elétrica, Belém já conhecia os bondes puxados por animais. De acordo com Rafael, eles chegaram por meio de outra companhia em meados de 1867, ainda no século XIX. A estrutura era pequena, com apenas três veículos.
“Parecia mais trens sendo puxados por burros, principalmente, do que propriamente uma linha grande como a gente conhece hoje em dia”, afirma o pesquisador. Naquele momento, os bondes enfrentavam a concorrência dos carros de coche, disponíveis para aluguel, e ainda não eram a principal opção de transporte.
A mudança ocorreu em 1907, quando a gestão do então intendente Antônio Lemos implantou a eletrificação. A partir daí, os bondes passaram a ocupar a posição de principal meio de locomoção na cidade, sobretudo entre as pessoas que dispunham de condições para utilizá-los.


A cidade idealizada por Lemos
Para Rafael, a adoção desse transporte estava ligada à Belle Époque e à influência da cultura francesa nas cidades brasileiras. O pesquisador aponta o Rio de Janeiro como a primeira cidade do país a implantar bondes elétricos e situa esse marco em 1896, antes da virada para o século XX.
Esse movimento também alcançou Manaus e Belém.
“Eram as cidades que estavam crescendo economicamente, então, elas buscavam referenciais culturais principalmente no exterior. Então, essa questão da cultura dos bondes também vem daí”, explica.
Na capital paraense, a eletrificação integrava o processo de embelezamento e higienização conduzido por Antônio Lemos, com inspiração na arquitetura parisiense. O projeto também envolvia uma expectativa de transformação dos hábitos da população. “Os bondes significavam, para o Antônio Lemos, um grande projeto para civilizar aquele povo. Ele acreditava que implementar os bondes poderia mudar os costumes das pessoas”, afirma Rafael.


O pesquisador ressalta, porém, que as reformas urbanas de Paris nasceram em um contexto de revoltas, em uma cidade marcada por revoluções desde a Revolução Francesa. Segundo sua análise, as grandes avenidas facilitavam a observação das pessoas e dificultavam a formação de barricadas. Assim, as mudanças estéticas tinham funções para os arquitetos parisienses que nem sempre se adequavam a Belém. Os bondes faziam parte desse conjunto de transformações.
Siméia também relaciona o embelezamento urbano às condições de permanência da população na área central.
“Esse processo de embelezamento da cidade vai ser muito emblemático nesse período do Antônio Lemos, de revitalizar os casarões e as pessoas que não tinham condições de manter os seus casarões eram deslocadas do centro da cidade, nesse processo de higienização”.
O que restou dos trilhos
Os bondes permaneceram em funcionamento em Belém até 1947, segundo Rafael. Com o tempo, perderam o lugar de principais meios de transporte público para os veículos movidos a combustível fóssil.
O pesquisador lembra que houve tentativas de reabilitar o transporte na cidade, mas elas assumiram um caráter mais turístico do que a função de deslocamento que os bondes desempenhavam anteriormente. Seu estudo se concentra no começo do século passado, embora o sistema tenha continuado em atividade nas décadas seguintes.


Na paisagem da capital, alguns trechos dos antigos trilhos ainda resistem sob o asfalto, sobretudo no Centro Comercial de Belém. Já na circulação urbana, a relação com aquele período aparece nas muitas vias que recebiam os bondes e hoje concentram linhas de ônibus.
Fonte: Diário do Pará



