Mais do que identificar embarcações, as letras coloridas que estampam os barcos da Amazônia representam uma tradição artística ligada à identidade das comunidades ribeirinhas. Esse saber passou a integrar oficialmente o patrimônio cultural do Estado após o Governo do Pará reconhecer o trabalho dos abridores de letras como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial.
A oficialização foi publicada no Diário Oficial do Estado na última quarta-feira (1º). O reconhecimento contempla tanto o saber tradicional desses artistas quanto as chamadas letras de barco, resultado de uma prática transmitida entre gerações e considerada uma das expressões culturais mais características da Amazônia.
O reconhecimento oficial dos abridores de letras
Os abridores de letras são artistas ribeirinhos autodidatas que pintam nomes, palavras e inscrições em barcos, além de muros e fachadas. Ao longo do tempo, desenvolveram uma tradição itinerante marcada por letras ornamentadas, cores vibrantes e traços próprios, preservando um conhecimento transmitido de geração em geração.
Nas comunidades ribeirinhas amazônicas, esses profissionais decoram embarcações de madeira que percorrem os rios da região. Mais do que cumprir uma função de identificação, as pinturas expressam a história, a cultura e a identidade das populações locais, transformando cada barco em uma manifestação artística.
Como nasceu a tradição das letras de barcos
A tradição existe há quase um século e continua viva graças à transmissão de conhecimentos entre pais e filhos ou entre mestres e aprendizes. A circulação das embarcações pelos rios amazônicos também contribuiu para espalhar e aperfeiçoar essa prática, permitindo que cada abridor desenvolvesse um estilo próprio.
Desse processo surgiu a letra decorativa amazônica, expressão artística que se consolidou como uma das marcas culturais da região. Cada autor imprime características particulares às inscrições, preservando uma estética construída ao longo das gerações.
Desde 2004, esse trabalho vem sendo pesquisado e mapeado pelo projeto Letras que Flutuam, criado a partir de uma monografia desenvolvida pela pesquisadora Fernanda Martins para a Especialização no Instituto de Ciências da Arte (ICA) da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Pesquisa revela a riqueza da letra decorativa amazônica
Pesquisadora do projeto Letras que Flutuam e professora da Faculdade de Artes Visuais da UFPA, a designer Samia Batista explica que o mapeamento busca valorizar a estética ribeirinha representada pelas letras de barcos.
“Se a gente for imaginar, a letra de barco é como a nossa culinária e a nossa música. A gente tem uma atmosfera, uma temperatura e isso se revela na nossa música, na nossa dança, na nossa comida e na estética amazônica. Então, a gente tem que entender que uma pequena letra guarda um mundo, um universo estético, então, ela não é apenas uma ilustração. Ela é uma representação cultural de um lugar e de um modo de viver”.
Segundo Samia, os levantamentos realizados pelo projeto — que também resultaram em dois documentários — mostraram que a letra decorativa amazônica é um fenômeno característico da calha do Rio Amazonas. Ela afirma que as regiões menos influenciadas por referências externas preservam uma riqueza maior nessa produção artística.
“A gente percebe que quanto mais o lugar está preservado de influência externa, por exemplo, das mídias, mais ricas são as letras. Aqueles lugares em que a mídia é muito presente, em que se tem mais acesso a modelos externos, minimalistas, a letra começa a ficar mais pobre porque os artistas entendem que eles têm que se adequar a uma estética global”, considera a professora.
A pesquisadora cita municípios como Abaetetuba para exemplificar essa característica.
“Nas cidades que não têm tanta influência de indústria, em que a dinâmica do rio é muito presente, como Abaetetuba, as letras são riquíssimas. A gente consegue perceber essa influência. Na calha do Rio Amazonas nós temos diferentes representações que vão mudando de acordo com as influências que eles recebem de fora. E o abridor de letra é o detentor desse conhecimento, que preserva e renova”.
O que estabelece a nova lei
Publicada no Diário Oficial do Estado, a Lei nº 11.627, de 1º de julho de 2026, declara como patrimônio cultural de natureza imaterial do Estado do Pará:
- o saber tradicional dos abridores de letra dos municípios ribeirinhos
- e as próprias letras de barco produzidas por essa prática
O texto também define as letras de barco como uma expressão artística e cultural tradicional, caracterizada pelo grande formato das inscrições e pelo uso de cores vibrantes. Segundo a lei, essas características representam a identidade coletiva das comunidades ribeirinhas do Estado do Pará.
Veja o documentário sobre os abridores de letras da Amazônia
O trabalho dos abridores de letras também foi registrado em um documentário. O registro acompanhou uma expedição fluvial amazônica dedicada ao mapeamento e à valorização desses artistas populares, responsáveis por pintar as tradicionais letras dos barcos da região. A produção é fruto de uma parceria entre o Instituto Letras que Flutuam e a Mapinguari Design, por meio do programa Amazônia Cultural, do Ministério da Cultura.
Dirigido por Fernanda Martins, o documentário tem fotografia de Marcelo Rodrigues, pesquisa de Sâmia Batista, edição de Joercio Barbalho Jr e produção de Marbo Mendonça. A trilha sonora original inclui a música “Carimbó Chamegado” (2012), de Dona Onete, cedida pela gravadora Ná Records. A produção é assinada pela Mapinguari Design e pelo Letras que Flutuam.
Fonte: Diário do Pará
